Agosto Lilás: há dores que ninguém vê, mas toda violência precisa ser reconhecida

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Violência psicológica pode se esconder em comportamentos de controle, humilhação e ameaça; reconhecer os sinais é fundamental para acolher e romper ciclos de abuso

Coluna de Marcia Bortolanza  

Escritora e Psicóloga

Agosto termina. O lilás deixa as campanhas, as fachadas e as publicações. Mas, para muitas mulheres, a violência não termina quando o calendário muda.

Ela continua dentro de casa, nas relações e, muitas vezes, escondida atrás de uma aparência de normalidade.

Quando pensamos em violência contra a mulher, ainda é comum imaginarmos hematomas, agressões físicas e marcas visíveis. Mas algumas das feridas mais profundas não aparecem no corpo.

Há mulheres que nunca receberam um tapa, mas são feridas todos os dias.

Por palavras que diminuem. Pelo controle disfarçado de cuidado. Pelo ciúme chamado de amor. Pela fiscalização do celular, das roupas, das amizades, do dinheiro. Pela ameaça, pela humilhação e pela frase repetida tantas vezes que, em algum momento, ela começa a acreditar: “Você não consegue sem mim”.

É assim que muitas formas de violência vão se instalando, devagar e silenciosamente.

Primeiro, ela deixa de encontrar uma amiga para evitar uma discussão. Depois, muda uma roupa. Para de dizer o que pensa. Evita determinados lugares. Aprende a medir palavras. Começa a pedir desculpas por coisas que não fez. Até que, sem perceber, passa a ocupar cada vez menos espaço dentro da própria vida.

Como psicóloga, considero fundamental falarmos sobre essas marcas invisíveis. A violência psicológica atinge justamente um dos lugares mais importantes do ser humano: a percepção de si mesmo.

Quando alguém é constantemente desqualificado, pode começar a duvidar da própria capacidade, das próprias escolhas e até daquilo que sente. E é justamente aí que precisamos substituir julgamento por acolhimento.

Ainda ouvimos: “Mas por que ela não vai embora?”.

Talvez essa seja a pergunta errada.

Quem observa de fora nem sempre conhece o medo que existe por dentro. Há dependência financeira ou emocional, filhos, ameaças, vergonha, isolamento e uma autoestima que pode ter sido destruída ao longo de anos.

Por isso, talvez devêssemos perguntar: “Como podemos ajudá-la a perceber que existe uma saída?”.

Precisamos falar sobre violência antes que ela se transforme em agressão física. Precisamos ensinar nossas meninas a reconhecer seu valor e nossos meninos a compreender que amar alguém nunca significará possuir alguém.

Amor não controla.

Amor não humilha.

Amor não ameaça.

Amor não provoca medo.

Uma relação saudável não exige que uma mulher abandone quem é para conseguir permanecer nela.

E essa reflexão não pertence somente às mulheres. Pertence aos homens, às famílias, às escolas, às empresas, às instituições e a todos nós. Combater a violência também significa não naturalizar comportamentos abusivos, não silenciar diante de uma situação evidente e saber acolher quem encontra coragem para pedir ajuda.

O Agosto Lilás termina, mas nossa responsabilidade não pode terminar com ele.

Que o lilás não seja apenas a cor de agosto. Que seja um lembrete permanente de respeito, dignidade e liberdade.

Porque talvez existam, muito perto de nós, mulheres sorrindo enquanto tentam esconder dores que ninguém vê.

Que saibamos enxergá-las.

Que saibamos ouvi-las.

E, principalmente, que nenhuma mulher precise esperar que a violência deixe marcas em seu corpo para entender que aquilo que machuca sua dignidade também precisa parar.

Nenhuma mulher nasceu para viver com medo. E nenhuma forma de amor deveria exigir silêncio para sobreviver.

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